DANUZA LEÃO
A vida não pode ser fácil
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Quem é difícil não suporta a companhia de gente leve, e encontra sempre um tão difícil quanto ele para conviver
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POR QUE será que para alguns a vida é tão fácil, tão leve, e para outros tudo é problema, complicação? Existem pessoas que estão gripadas, cheias de febre, e se levantam da cama, mesmo se sentindo péssimas, para ir ao dentista.
Qual seria o problema de desmarcar? Nenhum. Mas elas são exigentes com elas mesmas e, se deram a palavra -mesmo sendo uma simples ida ao dentista-, não podem falhar. Essas pessoas, se são duras com elas mesmas, são também duras com os outros. Ai de você telefonar às 19 horas para desmarcar aquele jantar combinado na véspera. Jantar que não era nada, apenas um encontro de dois bons amigos que se falam quase todo dia no telefone; por mais que tenha havido um bom motivo, um complicado acha que isso não se faz.
Ele cria expectativas -para o bem e para o mal- que não podem ser frustradas, sob pena de cair em profundo sofrimento. Se um desses complicados programar uma viagem maravilhosa para as ilhas gregas, quando voltar ele vai falar apenas de como é difícil viajar nos dias de hoje, dos aeroportos cheios, da bagagem que demorou a chegar na esteira, e vai se esquecer de contar as coisas maravilhosas que viu, até porque talvez ele não tenha visto nada, apenas olhado, o que não tem nada a ver.
Mesmo boas notícias que não estavam programadas contrariam os viciados em sofrer. O imprevisto, mesmo -e sobretudo- em se tratando de coisas boas, transtorna certas pessoas; a vida para elas é difícil, dura. Não se pode ser feliz porque o castigo vem depois. Elas adiam qualquer prazer por nada, ou talvez para não terem prazer. Quando veem alguém com pouco ou nenhum futuro pela frente, um empreguinho de nada, sem perspectivas, tomando uma cerveja e dando não uma, mas várias gargalhadas, elas se sentem quase ofendidas.
E sempre encontram uma outra pessoa para dizer o quanto aquele cara é irresponsável, que depois não se queixe e, sobretudo, que não venha pedir nada, já que vive pensando que a vida é fácil. O lema deles é esse: "A vida não é fácil". A visão de uma pessoa que acha que a vida pode ser fácil e leve faz mal aos difíceis. Só que a vida ser fácil ou difícil depende, e muito, de como se é. Quem é difícil não suporta a companhia de gente leve, e encontra sempre um tão difícil quanto ele para conviver.
E o que é uma pessoa fácil? É aquela que, se você passar na casa dela na hora do almoço e não tiver nada na geladeira, diz, alegremente, que não tem problema, que em cinco minutos resolve tudo, e pergunta o que você quer: se um pão fresquinho, com um presunto cortado na hora e um guaraná, ou se prefere uns ovos mexidos e uma cerveja. Mas isso nunca vai acontecer: uma pessoa difícil nunca chega à casa do outro sem avisar, para que o outro nunca, jamais, faça isso com ele, que só de pensar nessa possibilidade já fica estressado; difícil lidar com pessoas difíceis.
Não há quem não tenha uma amigo difícil; eu tenho alguns, e você também deve ter, claro. E o mais inexplicável é que continuo gostando deles, me dando com eles, telefonando para eles, como provavelmente acontece com você. Por que será?
danuza.leao@uol.com.br
Aqui questionamos, buscamos respostas, sugerimos e criticamos o que entendemos não atender os anseios e expectativas do interesse público. Buscando a coerência, a imparcialidade e a verdade. Respeitamos opiniões divergentes sem jamais acatar imposições
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
domingo, 27 de setembro de 2009
Honduras - República de Bananas
Deu em O Globo
Honduras - República de Bananas
De Merval Pereira:
O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, e o protoditador venezuelano Hugo Chávez encarregaram-se em questão de poucas horas de desmontar a versão oficial de que as autoridades brasileiras nada sabiam sobre a sua estratégia de regressar ao país e abrigar-se na embaixada brasileira em Tegucigalpa.
Falando à rádio Jovem Pan, o presidente deposto, Manuel Zelaya, disse que a escolha da representação diplomática brasileira foi uma "decisão pessoal", depois de consultas feitas ao presidente Lula e ao chanceler Celso Amorim.
Já Chávez revelou, rindo, como "enganou" todo mundo, monitorando a viagem de Zelaya através de um telefone via satélite, e que quando todos esperavam que o presidente deposto estaria em Nova York, para a reunião da ONU, ele "se materializou" na embaixada brasileira.
A reboque da estratégia bolivariana, o governo brasileiro está participando de uma farsa política com ares de "república de banana", só que dessa vez o papel de interventor não é dos Estados Unidos, mas do Brasil, conivente com a irresponsabilidade de Chávez.
Um advogado paulista, Lionel Zaclis, doutor e mestre em Direito pela USP, publicou no site "Consultor Jurídico" um estudo detalhado sobre o processo de destituição do presidente hondurenho, à luz da Constituição do país, e chegou à conclusão de que não houve golpe de Estado.
Segue um resumo de seu relato:
"De acordo com a Constituição de Honduras, como destacamos aqui ontem, o mandato presidencial tem o prazo máximo de quatro anos (artigo 237), vedada expressamente a reeleição. Aquele que violar essa cláusula, ou propuser-lhe a reforma, perderá o cargo imediatamente, tornando-se inabilitado por dez anos para o exercício de toda função pública."
"(...) Em 23 de março de 2009, o presidente Zelaya baixou o Decreto Executivo PCM-05-2009, estabelecendo a realização de uma consulta popular sobre a convocação de uma assembleia nacional constituinte para deliberar a respeito de uma nova carta política."
"(...) Em 8 de maio de 2009, o Ministério Público promoveu, perante o ‘Juzgado de Letras Del Contencioso Administrativo’ de Tegucigalpa, uma ação judicial contra o Estado de Honduras, pleiteando a declaração de nulidade do decreto (...)."
"(...) E, como tutela antecipatória, que foi aprovada, requereu-lhe a suspensão dos efeitos, sob o fundamento de que produziria danos e prejuízos ao sistema democrático do país, de impossível ou difícil reparação, e em flagrante infração às normas constitucionais e às demais leis da República, para não falar dos prejuízos econômicos à sociedade e ao Estado, tendo em vista a dimensão nacional da consulta."
"(...) Em 3 de junho, o Juizado proibiu o presidente Zelaya de continuar a consulta. Contra essa decisão, impetrou ele um Recurso de Amparo — similar ao nosso Mandado de Segurança — perante a Corte de Apelações do Contencioso Administrativo, o qual foi rejeitado em 16 de junho."
"(...) Assim, o Juizado do Contencioso Administrativo expediu, no dia 18 de junho, uma segunda ordem contra o presidente, tendo uma terceira sido expedida nesse mesmo dia. Em virtude dessa desobediência, o promotor-geral da República ofereceu, perante a Suprema Corte, denúncia criminal contra o presidente Zelaya, sustentando configurar sua conduta crimes de atentado contra a forma de governo, de traição à pátria, de abuso de autoridade e de usurpação de funções, em prejuízo da administração pública e do Estado."
"(...) A Suprema Corte aceitou a denúncia em 26 de junho, com fundamento no art. 313 da Constituição e designou um magistrado para instruir o processo. Foi decretada a prisão preventiva do denunciado, com o que foi expedido mandado de captura, cujo cumprimento ficou a cargo do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas."
"(...) No mesmo dia, o Juizado de Letras do Contencioso Administrativo deu ordem às Forças Armadas para suspender a consulta pretendida pelo presidente Zelaya e tomar posse de todo o material que nela seria utilizado."
"(...) O presidente Zelaya, então, ordenou ao chefe do Estado-Maior das Forças Armadas que distribuísse o material eleitoral de qualquer modo, porém o último, invocando a ordem judicial, se negou a fazê-lo, ao que foi destituído, tendo, em seguida, impetrado junto à Suprema Corte um recurso de amparo para ser reconduzido ao cargo."
"(...) Em 25 de junho a Suprema Corte cassou o ato do presidente Zelaya, sob o fundamento de que a remoção do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas constitui ato privativo do Congresso Nacional nos termos do artigo 279 da Constituição."
"Uma frase famosa na diplomacia brasileira é a do chanceler do governo Geisel Azeredo da Silveira, que vivia repetindo: "O Brasil não pode dar a impressão de que é uma Honduras".
A preocupação tinha sentido: Honduras é o país inspirador do termo "República de bananas" ou "República bananeira" cunhado pelo escritor americano O. Henry, pseudônimo de William Sydney Porter, que, no livro de contos curtos Cabbages and Kings, (Repolhos e Reis) de 1904, usou pela primeira vez a expressão, que passou a designar um país atrasado e dominado por governos corruptos e ditatoriais, geralmente na América Central.
O principal produto desses países, a banana, era explorado pela famosa United Fruit Company, que teve um histórico de intromissões naquela região, especialmente Honduras e Guatemala, para financiar governos que beneficiassem seus interesses econômicos, sempre apoiado pelo governo dos Estados Unidos.
A cláusula pétrea da Constituição de 1982 de Honduras tinha justamente o objetivo de cortar pela raiz a possibilidade de permanência no poder de um presidente, pondo fim à tradição caudilhesca no país.
sábado, 26 de setembro de 2009
Cuba planeja acabar com as subvenções sociais devido à gravidade da crise.
Mauricio Vicent
Em Havana
O governo de Raúl Castro começa a dar os primeiros passos para desmontar o macrossistema estatal de subsídios e benefícios sociais que durante meio século foram símbolo do igualitarismo da revolução cubana, mas que hoje são considerados um "peso insustentável". Anualmente, o governo gasta cerca de US$ 800 milhões (R$ 1,4 bilhão) para subvencionar a cartilha de racionamento e pelo menos outros US$ 350 milhões nos refeitórios operários, os primeiros que poderão sucumbir à nova política de realismo econômico.
As autoridades anunciaram ontem que a partir da próxima semana começará um "experimento" em quatro ministérios - Trabalho e Seguridade Social; Finanças e Preços; Economia e Planejamento; e Comércio Interior -, que consiste em suprimir os refeitórios operários de suas dependências em troca de dar uma ajuda monetária aos trabalhadores. O salário médio mensal em Cuba é de 480 pesos (cerca de 12 euros ou R$ 32), e o "estipêndio" que será dado aos funcionários para que almocem por sua conta será de 15 pesos diários (cerca de 0,50 euro).
Se, como é de se esperar, a medida se estender em nível nacional, terá um impacto considerável. Em Cuba existem mais de 24.700 refeitórios operários, onde se alimentam diariamente 3,5 milhões de trabalhadores do Estado, um terço da população. O jornal oficial "Granma" comentou ontem que o objetivo é "abrir as portas para a racionalidade e a economia" e "libertar o país de um peso que não pode nem tem condições de continuar carregando".
Durante meio século, o governo de Fidel Castro fez do paternalismo estatal a fórmula para garantir a igualdade social. Era o governo, seguindo critérios ideológicos e não econômicos, que garantia as necessidades da população (comida, roupa, educação, escola etc.). Não importava quanto isso custasse e se uma pessoa era mais ou menos produtiva no trabalho.
Com Raúl Castro, o realismo econômico começa a substituir o paternalismo fidelista. O atual presidente cubano disse recentemente que o gasto social deveria "estar de acordo com as possibilidades reais". "É preciso eliminar o gasto que é simplesmente insustentável, que cresceu ano após ano e que, além disso (...) está fazendo que as pessoas sintam que não têm necessidade de trabalhar", afirmou.
Raúl já disse que a saúde e a educação continuarão sendo gratuitas e universais, e que o sistema de seguridade social, que consome cerca de 20% do orçamento nacional, é prioritário. Todos os demais subsídios e benefícios hoje estão em processo de revisão, incluindo a famosa cartilha de racionamento, em vigor desde os anos 1960. Os indícios de que se pretende acabar com a cartilha são cada vez mais fortes. Por ela, cada cubano recebe mensalmente pequenas quantidades de arroz, feijão, açúcar, óleo e proteínas a preços subsidiados, e que duram cerca de 15 dias.
Manter a caderneta custa ao Estado US$ 800 milhões anuais; a ideia, ao que parece, é subvencionar agora as pessoas mais necessitadas, e não os produtos. De qualquer modo, a decisão não é simples: com os salários de hoje, um golpe assim poderia ser demolidor para muita gente, afirmam os economistas.
Desde que assumiu o poder, Raúl Castro tomou medidas para eliminar as cargas excessivas do Estado: há alguns meses acabou com as férias subsidiadas na praia para os dirigentes e trabalhadores exemplares, e também com as cotas de produtos em pesos cubanos que eram dadas a algumas pessoas, por exemplo, os recém-casados. No entanto, ainda restam centenas de benefícios intocados, desde o direito de cada cubano a um enterro e um caixão gratuitos ao morrer, até o bolo subvencionado no Dia das Mães.
Um economista cubano opinou: "É necessário eliminar subsídios, mas então o salário deve recuperar o valor que hoje não tem. O Estado deve dar maiores margens à iniciativa privada para permitir que as pessoas consigam progredir".
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Dilma afaga Serra; Ciro avisa: ‘Meu adversário é ele’
Em alta nas pesquisas, o presidenciável Ciro Gomes (PSB) converteu-se num medidor de asfalto. Ele corre o país.
De passagem por Santa Catarina, deu entrevista.
Disse que “já sabia” que a última pesquisa do Ibope lhe reservava números auspiciosos.
Deu de ombros: “Com 30 anos de vida pública recomenda-se que as pesquisas sejam vistas com cuidado”.
Voltou a dizer que não o anima a idéia de disputar o governo de São Paulo. O que o apetece mesmo é a corrida presidencial.
A certa altura, esboçou a estratégia. Vai ao palanque de 2010 com a disposição de polarizar com o rival tucano José Serra:
“Meu adversário é o passado. E este passado se chama Serra. Ele foi ministro do Fernando Henrique e eles construíram uma agenda perversa para o país”.
Enquanto Ciro fustigava Serra em Florianópolis, Dilma Rousseff, a presidenciável de Lula, trocava gentilezas com o adversário, em São Paulo.
A ministra se diz "curada" do câncer.
No palco, dscursaram em timbre de fraternal discordância.
Ela realçou a destreza do governo Lula no trato da crise financeira.
Ele pôs em dúvida o futuro econômico do país.
Ela envernizou o programa habitacional Minha Casa, Minha Vida.
Ele mostrou-se simpático à iniciativa. Mas cuidou de lustrar seus próprios programas de moradia.
Afago vai, gentileza vem, o palmeirense Serra animou-se a estabelecer um ponto de contato com a atleticana Dilma.
Na véspera, o Palmeiras prevalecera, em pleno Mineirão, sobre o Cruzeiro, velho rival do Atlético mineiro.
“Ela está aqui partilhando a satisfação dos palmeirenses”, disse Serra. Dilma sorriu. E bateu palmas.
Na grande área de São Paulo, como que dispostos a estreitar inimizades, Serra e Dilma trocaram passes.
Na pequena área de Florianópolis, mais interessado em demarcar terreno, Ciro foi à canela.
Ele exibe a fome de um zagueiro de time de várzea. Impõe-se aos trancos.
Escrito por Josias de Souza às 03h26
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Senado deve demitir amanhã ex-namorado da neta de Sarney.
MÁRCIO FALCÃO
GABRIELA GUERREIRO
da Folha Online, em Brasília
O Senado deve confirmar amanhã a demissão de Henrique Dias Bernardes, ex-namorado da neta do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). A Diretoria Geral informou à Folha Online que Bernardes retorna de férias amanhã e deve ser desligado dos quadros da Casa.
Funcionário do Serviço Médico do Senado, ele foi contratado por meio de um ato secreto para trabalhar na Diretoria Geral, mas acabou deslocado de função. O responsável do setor que Bernardes trabalha pediu que ele fosse mantido, mas, por intermédio de assessores, Sarney informou que vai exonerar o servidor em ato que será publicado no boletim administrativo de pessoal. Sarney decidiu pela exoneração do ex-namorado de sua neta para evitar desgastes políticos.
A Folha Online apurou que, dos 79 atos secretos que nomearam servidores para o Senado, 65 já foram revalidados pela Diretoria Geral do Senado --dos quais 45 foram divulgados. O ato de nomeação de Henrique Dias está entre os 20 que ainda não foram divulgados pela Casa. Ainda faltam outros 14 que estão sendo analisados pela Diretoria Geral para definir se serão, ou não, revalidados.
Em entrevista à Folha Online no início de julho, o servidor disse que trabalha oito horas diárias e não demonstrou constrangimento com a divulgação dos áudios da Polícia Federal que indicariam que o presidente do Senado negociou sua contratação.
Em julho, ao se defender das acusações de que usou ato secreto para nomear parentes no Senado, Sarney minimizou a denúncia, mas disse que não podia negar o pedido de uma neta.
"Acusam-me de favorecer um namorado de minha neta por ato secreto. Nos trechos de diálogos de maneira ilícita, verifica-se que se tratam de conversas coloquiais entre familiares, que nada têm em um processo em segredo de Justiça e pela lei deveriam ser eliminados. Não há nelas qualquer palavra minha em relação a nomeação por ato secreto. É claro que não existe um pedido de uma neta, se pudermos ajudar legalmente, que deixemos de atender", afirmou.
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